Quando viajam, os imigrantes levam cerca de seis meses para entrar
na rotina do país de destino, mas, quando voltam, podem demorar
aproximadamente dois anos para se readaptar. O fenômeno pode levar até à
depressão.
O sonho de voltar ao Brasil depois de morar alguns anos em outro país
pode se transformar em um pesadelo. Denominado pelos psicólogos de
"ferida do retorno", o fenômeno afeta muitos imigrantes e pode levar
desde à sensação de falta de identidade até depressão. Comuns a quem
volta à terra natal, os sintomas surgem porque o estresse de se
readaptar à antiga cultura pode ser pior que as dificuldades enfrentadas
num país estrangeiro. A especialista em psicologia intercultural Andrea
Sebben explica que a "síndrome do retorno", como também é conhecida,
acomete geralmente pessoas que moram mais de três anos fora do país. De
acordo com a psicológa, amigos e familiares costumam não entender o
problema, o que agrava a situação. Andrea destaca também que o processo
de reintegração fica ainda mais difícil porque a maioria das pessoas
considera a reclamação e a insatisfação de quem volta uma atitude
esnobe.
"Quando você fica muito tempo fora do país, você acaba perdendo a
cumplicidade e a espontaneidade no relacionamento com ele. Quando você
volta, você começa a estranhar tudo. Estranha a sí mesmo, estranha os
demais. Frequentemente diz que as pessoas não conseguem entender o que
passou. As pessoas que ficaram elas se negam a entender que embora o
parente ou o amigo seja brasileiro, ele teve outros registros na vida
dele. Ele não está fazendo manha, ele não está fazendo birra. É dor
mesmo."
Há dois anos convivendo com a "síndrome do retorno", a gerente de
logística Thatiana Souza, de 32 anos, conta que voltou ao Brasil em
2013, depois de morar cinco anos e meio nos Estados Unidos. Segundo ela,
a volta foi dolorosa e a família chegou a achar que estava em
depressão. Thatiana relata que se isolava no quarto, chorava e se sentia
num ambiente desconhecido. A falta de educação das pessoas no trânsito e
de estrutura do sistema de transporte e de saúde, além dos baixos
salários, fizeram Thatiana planejar uma nova viagem.
"As maiores experiências que eu tive foram fora do Brasil, então
quando você vai comentar alguma coisa, você estava na Grecia, na Turquia
ou na Croácia e as pessoas acham que você está falando isso como se
você estivesse querendo enaltecer a sua ida a esses lugares. Mas não é!
Algumas situações que você passou, você estava naqueles lugares. É muito
complicado. E o pior de tudo: a violência. Você volta de viagem e tem o
pânico: O que está acontecendo? Onde eu posso ir? Será que eu vou
voltar?"
Com o mesmo problema, o investidor Leonardo Dias, de 35 anos, revela
que já morou fora por três vezes. Segundo ele, as idas e vindas
resultaram num sentimento de que ele não pertence mais ao Brasil.
Leonardo diz que depois de morar mais de dez anos em diferentes países,
entre eles Estados Unidos e Espanha, a rotina no Rio de Janeiro se
tornou muito difícil e desgastante.
"A maior dificuldade é trabalhar no Brasil, fazer as coisas
acontecerem. Depois que você mora fora, principalmente na Europa ou nos
Estados Unidos, você percebe o quanto é difícil fazer acontecer as
coisas. Fazer a compra e venda de um ímóvel, resolver algumapendência em
repartição pública. A própria locomoção ... é muito desgastante fazer
qualquer coisa aqui. Tudo tem que fazer de carro, aí você já pensa na
segurança, onde vai estacionar o carro."
A professora do Núcleo de Estudos e Orientação Intercultural da
Unifesp, Sylvia Duarte Dantas, explica que ainda não é possível calcular
o número de pessoas que sofrem com a "ferida do retorno". No entanto,
segundo ela, o problema é mais comum do que se imagina. Segundo a
professora, a adaptação a um país diferente demora em torno de seis
meses, enquanto a readaptação no país de origem pode demorar cerca de
dois anos. De acordo com Sylvia Dantas, isso acontece porque a pessoa ao
deixar a terra natal se preocupa em amenizar o choque cultural no novo
país. No entanto, durante a volta para casa, essa preocupação não
existe, o que prejudica a condição do viajante.
"A questão que as pessoas nao se dão conta é que a volta representa uma
nova migração. Quem morou fora passou por um processo de mudança e
quando volta há um choque reverso e o custo emocional é muito maior. Se
pensa que está voltando para um lugar conhecido, familiar, mas na
verdade está pessoa já tem um jeito meio estrangeiro e acaba enfrentando
dificuldades para se readaptar"
A "síndrome do regresso" não afeta apenas brasileiros. De acordo com
especialistas, os imigrantes em geral têm o sentimento de que o país que
deixaram não é o mesmo de quando retornam. A síndrome pode ser superada
apenas com o auxílio de amigos e parentes, mas, nos casos mais graves,
pode ser necessário o acompanhamento de um psicólogo. Para atender aos
brasileiros que voltam ao país, o Itamaraty lançou o "Guia e o Portal de
Retorno ao Brasil" , onde expatriados podem procurar informações sobre
abertura de pequenos negócios, previdência social, documentação, entre
outras. Os dados mais recentes do Itamaraty, divulgados em 2014, mostram
que mais de três milhões de brasileiros moravam no exterior. Esse
número vem aumentando desde 2011.
Por Marcela Lemos
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